Pregão

O “Pregão”, ou como era primitivamente designado, “Bando Escolástico”, realiza-se a 5 de Dezembro e consiste na declamação de um texto satírico-retórico, da autoria de Novos ou Velhos nicolinos, recitado de modo entusiasta por um estudante, que é o “Pregoeiro”, sendo sempre escolhido de entre os 10 elementos da Comissão de Festas, por ser aquele que tenha uma voz mais pujante; o Pregoeiro é escolhido entre aqueles, por ser o que revela dotes de declamação e dicção condizentes com o exigido, bem como, por ser aquele que ostenta uma pose condigna para a ocasião.

O “Pregão” servia antigamente para anunciar as Festas Nicolinas, isto numa altura em que estas se realizavam em apenas dois dias, o dia 6 de Dezembro, dia de S.Nicolau e no dia anterior (5 de Dezembro), realizava-se o “Pregão” que tinha como objectivo apenas anunciar as Festas e proclamar pela cidade a crítica social e política, na perspectiva dos estudantes, fazendo-o através dos espírito contestatário que sempre lhes foi e tem sido peculiar.

O Número Nicolino do “Pregão”, surgiu no século XVIII, apesar o primeiro texto do Pregão que chegou aos nossos dias, ser o de 1817 (século XIX), no entanto, esse Pregão é já revelador de uma maturidade textual que leva a presumir que tivesse, seguramente, sido antecedido por muitos outros. Apesar de se poder atribuir diversas influências a este número do “Pregão” (radicarão porventura no costume medieval de publicitar mensagens de diverso teor que diziam respeito à comunidade, recorrendo a um pregoeiro a cavalo escoltado de peões munidos de trombetas ou tambores), facto é que se nos apresenta hoje, com uma singularidade inequívoca, sem par em eventos académicos ou outros conhecidos, que tenham chegado aos nossos dias.

2006.12.05 - Pregao (3)
1999.12.05 - Pregao (4)

Os “Pregões de S.Nicolau” (o pregão-texto) são por isso uma boa forma de conhecer uma parte de viver quotidiano do Guimarães antigo, aí se retratou, por exemplo, a chegada da luz eléctrica ou do automóvel, a implantação da República, a entrada na União Europeia, etc. Existem pregões que são autênticas lições de história local e nacional e outros, verdadeiras obras primas literárias.

Na estrutura do “Pregão de S.Nicolau”, fazem sempre parte alguns aspectos fixos como: apelo a Guimarães e exaltação da terra; elogio a S.Nicolau e a tudo o que o Santo representa para os estudantes; referências à mitologia clássica; alusão a situações da época (nomeadamente crítica à política local, nacional e mundial e sempre … ao nosso Vitória); aviso aos intrometidos futricas e a ameaça com o Chafariz do Toural; referência às Damas e ao culto do amor; apelo à energia do tocadores de caixa e bombo, ou tocadores de zabumba, no acompanhamento do Pregão.

O “Pregão” é recitado, ou apregoado, em cinco pontos da cidade por onde se deslocam em cortejo os estudantes bramindo as baquetas e castigando os bombos e caixas, executando o “Toque do Pregão”.
Antes da saída, a Comissão de Festas e alguns convidados, são por tradição convidados para um almoço, na casa do escritor do Pregão desse ano. Num banquete onde preparam o Pregoeiro, o escritor dá os últimos avisos ao seu declamador e “treina-se” o cavaleiro (1º Vogal da Academia) para a penosa tarefa que o espera…

A saída, é do Campo da Feira, pelas 15.00h. O cortejo, é liderado a cavalo, pelo 1º Vogal da Academia, trajado a rigor e ostentando a bandeira da Academia Vimaranense seguido pelo “Carro do Pregão”, um coche puxado por uma ou duas parelhas de cavalos, com cocheiro e trintanário, onde seguem o Pregoeiro e os “4 Grandes”, ou os dos cargos da Academia (Presidente; Vice-Presidente; Tesoureiro; Secretário).

Todos este seguem também trajados a rigor, com luvas brancas, laço preto e mascarilhas verdes e o Pregoeiro, de luvas, colarinho e mascarilha brancos (adereço que serve para “esconder” simbolicamente os responsáveis pelas afirmações proferidas, algumas das quais, ainda hoje deixam moça) e com uma camisa de smoking, de colarinhos levantados, academicamente designada por camisa de “irópito”. A seguir vem a multidão de estudantes, chefiados pelo Chefe de Bombos com a sua “boneca” para marcar o toque dos bombos.

A restante Comissão de Festas (aliás como todos os estudantes que participem no cortejo), vêm vestidos com o chamado “traje de trabalho” (calças pretas, camisa branca, lenço tabaqueiro e gorro nicolino), não lhes cabendo tocar, mas antes, desempenhar a difícil tarefa de fazer com que não haja um único ruído, enquanto o Pregoeiro está a recitar; recorrendo aos meios necessários para os “fazer calar”.

Depois de saído do Campo da Feira, o “Pregão” é então recitado em cinco locais: na Câmara Municipal de Guimarães, situada no edifício do antigo Seminário-Liceu, onde o Pregoeiro recita normalmente ladeado pelo Presidente da edilidade, aqui, depois de recitado o Pregão e pela primeira vez, são distribuídos os panfletos com o texto do Pregão, para a população e os estudantes poderem acompanhar a sua leitura; depois, o cortejo segue para o edifício do Liceu Nacional de Guimarães (agora Escola Secundária Martins Sarmento), na Alameda Abel Salazar; em seguida, regressa ao Centro Histórico, à “Rua mais antiga de Portugal”, a Rua de Santa Maria, onde o Pregão é recitado na janela da casa da Sr.ª Aninhas, madrinha dos estudantes vimaranenses; a quarta localização, é normalmente a sede da Comissão de Festas, mas devida à ausência de sede em muitos dos anos recentes, ele é recitado na Praça de Santiago, local de encontro da juventude vimaranense; por último, é recitado na janela da casa nicolina, a Torre dos Almadas, em duas janelas sendo que aqui, no último local, o Pregoeiro é por tradição ladeado (na janela da sua direita), pelo escritor do Pregão. O cortejo segue depois ainda para o Toural, onde termina. Após o cortejo, a Comissão de Festas e alguns convidados vão jantar, por tradição, a casa do Pregoeiro, herói deste dia, que no fim do repasto, aí recita pela última vez.

São ainda feitas cópias do texto do Pregão, em papel mais nobre, que são os chamados “Pregões Dourados”. Estes são oferecidos pelo Pregoeiro e pela Comissão de Festas, às entidades vimaranenses e às pessoas que lhes sejam mais queridas, sendo ainda considerado um orgulho, ser presenteado com um “Pregão Dourado”.

O “Pregão” é assim, dos números mais característicos e mais tipicamente nicolinos, servindo de suporte histórico e fazendo bem a ponte entre o folguedo estudantil, no zabumbar de caixas e bombos e os conhecimentos literários e a capacidade de escrita e declamação, esperável da sua formação escolar. É um dia muito importante para aquele que tenha a suprema honra de ser escolhido pelos seus pares, para representar a Comissão e declamar à cidade, e é um dia em que a Comissão contribui para os arquivos da cidade, compilando em verso e em prosa, os eventos ocorridos nesse ano, na nossa cidade de Guimarães, em Portugal e no Mundo. É um dia em que, ano após ano, se faz História…

 

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