Maçãzinhas

As “Maçãzinhas”, são o número mais importante e significativo das Festas Nicolinas. O que se demonstra até pela data da sua realização: dia 6 de Dezembro, dia de S.Nicolau, o dia mais importante dos festejos nicolinos.

O que também se verifica por, ao não poderem as raparigas participar nos festejos, só lhes cabendo assistir (precisamente por serem elas as destinatárias de todos os comportamentos folclóricos tão tipicamente masculinos, ostentados em todos os outros Números), é-lhes reservado e dedicado o dia mais significativo, o dia de S.Nicolau. Estando elas, simbolicamente, nas janelas ou varandas, onde passaram e de onde assistiram a todos os restantes Números.

As “Maçãzinhas” são também e por isto mesmo um número de clara inspiração romântica, de recuperação das antigas técnicas de galanteio, cuja particularidade se prende com o facto de apesar de nos dias de hoje, estarem já totalmente ultrapassadas, conseguirem ainda manter os seus efeitos de romantismo.

Interessa referir que o nome deste número nicolino advém precisamente do facto de as maçãs que servem de oferenda, serem muito pequenas em tamanho. Isto porque, as primeiras maçãzinhas que os estudantes levavam eram oferecidas, e foram-no durante muitos anos (até 1838), pelo Rendeiro de Urgeses que oferecia sempre aquelas maçãs redondinhas, coradinhas e muito pequeninas; daí o nome atribuído a este número.

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A magia das “Maçãzinhas” começa muito antes do dia 6 de Dezembro. Desde logo, porque os rapazes têm que levar a sua lança, a lança que colocam no cimo da cana com que chegam às varandas, carregada de fitas que pedem às raparigas. Fitas essas que podem ser de várias cores, sendo que cada cor tem um significado. Normalmente nas fitas, para além das cores escolhidas, são colocados dizeres, símbolos e mensagens que deixam “pistas” aos rapazes sobre qual a rapariga em que deverão “apostar” para entregar a lança. Se os rapazes já tiverem optado por uma rapariga que pretendem galantear, pedem a essa a fita do laço (fita com o dobro do tamanho das restantes, sempre cor-de-rosa, com a qual se dá um laço que irá prender as restantes). Contudo, a fita do laço do primeiro cortejo das “Maçãzinhas” a que um rapaz vá, é sempre, por tradição, oferecida pela mãe, sendo nesse caso sempre, a fita de cor branca, cor que se mantém reservada para a mãe mesmo quando já não dá a fita do laço.

Depois, no dia 6 de Dezembro, as “Maçãzinhas” consistem num cortejo alegórico, que desfila pelas ruas da cidade, com saída pelas 15.00h, tendo como destino final a Praça de Santiago (antigamente era o Largo do Toural e Rua de Santo António, mas por imposição dos tempos, fundamentalmente devido ao trânsito, foi alterado o destino para uma das mais simbólicas praças da cidade de Guimarães), local que apesar de não ter nenhuma ligação directa à festa nicolina, tem o mesmo nome da cidade espanhola (Santiago de Compostela), que teve uma importância fulcral na introdução do culto a S.Nicolau, em Guimarães. É de certa forma, ainda que de um modo não intencional, uma forma de se prestar homenagem àquela que é a base fundadora (através dos Romeiros) do culto a S.Nicolau na nossa cidade.

Durante a manhã, são os preparativos para a festa. Eles, os rapazes, estão nas Oficinas de S.José a construir e a ornamentar os seus carros, a preparar os seus disfarces, a colocar as fitas na lanças, a colocar as suas lanças na respectiva cana e a arranjar um Escudeiro que os acompanhe. Elas, as raparigas – sempre coordenadas por um grupo de meninas que todos os anos se forma para ajudar a Comissão de Festas na organização deste número, dando-lhe o indispensável “toque feminino” – estão na Praça de Santiago, a coser camélias brancas às capas pretas de estudante e a colocar as capas em todas as varandas que serão ocupadas por elas, para melhor identificação.

Neste cortejo, tal como no cortejo do “Pregão”, o desfile é liderado pelo 1º Vogal da Academia, a cavalo, seguindo-se-lhe em coche o chamado “Carro dos 4” (composto pelos membros da Comissão de Festas que ocupem os chamados cargos da Academia: Presidente; Vice-Presidente; Tesoureiro e Secretário), com os seus ocupantes trajados a rigor, de capa e batina. O segundo carro é o primeiro dos carros alegóricos, constituído pelos restantes membros da Comissão de Festas Nicolinas; a este carro seguem-se os feitos pelos restantes estudantes, normalmente organizados por escolas.

Todos os estudantes com excepção para os da Academia, participam disfarçados, e cada carro alegórico está subordinado a um tema. Há quem afiance ser este disfarce uma forma de evitar identificações, para mais à vontade se poderem “atirar” à sua pretendida, ou para outros, para os mais tímidos e envergonhados, como forma de se poderem “esconder”.

Chegados à Praça de Santiago (sempre totalmente preenchida de populares) – onde as meninas aguardam pacientemente enchendo as diversas varandas de toda a praça – dá-se início à parte mágica, ao cerne das “Maçãzinhas”. Os rapazes, disfarçados e acompanhados por um Escudeiro que possa colocar a maçãzinha na lança que está na extremidade da enorme cana que irá depois ser vigorosamente levantada por eles, começam a distribuir a maçãs por todas as varandas. As raparigas, que nunca escondem a felicidade por terem sido escolhidas para receber uma maçã, devolvem o gesto com a colocação de uma “prendinha” na ponta da lança, guardando para alguns felizardos, algumas prendas com significado especial.

No final, quando acabam as maçãs, a lança é retirada da ponta da cana àquela a quem o rapaz se pretende declarar, ou à que é já a sua “escolhida”. Quando nenhuma delas exista, a lança é oferecida à mãe. Igualmente, tal como com a fita do laço, a lança do primeiro cortejo das “Maçãzinhas” a que um rapaz vá, é sempre, por tradição, oferecida à mãe, que guardará assim e por direito, uma lança de cada filho que vá às “Maçãzinhas”, tentar arranjar forma de “sair de casa”…

O número das “Maçãzinhas” está carregado de significados. Desde logo, não é alheio ao formato adoptado nas “Maçãzinhas”, o facto de S.Nicolau ser também o padroeiro das raparigas pobres. S.Nicolau tornou-se padroeiro das raparigas pobres por ter instituído um dote (para três raparigas muito pobres cujos pais não poderiam conceder-lhes o dote), permitindo dessa forma que pudessem casar. Dote esse que S.Nicolau lhes fez chegar, em segredo, por uma janela…

Está também muito presente, em toda a envolvente da festa, o simbolismo da recuperação do namoro “à moda antiga”, não só através dos disfarces com que os rapazes se apresentam, como no facto de só poderem “namorar” à janela (como sucedia no tempo antigo), como ainda, nas diversas formas subtis que há de passar mensagens de eles para elas e de elas para eles (através das fitas, das prendinhas, das lanças, etc.).

A principal peculiaridade das “Maçãzinhas” e que faz com que não surjam como uma mera representação teatral, reside no facto de apesar de assentar em costumes e práticas de galanteio já de “tempos idos”, conseguir ainda, em jovens (rapazes e raparigas) modernos do século XXI, de um tempo de total liberdade de relacionamento, produzir neles os mesmos efeitos de sempre, fazendo-os sentir como porventura de nenhum outro modo nas suas vidas, o efeito do romantismo, de um sentimento que já não há, mas que ali, em quem participa, se recupera de uma forma indescritivelmente … mágica!

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